Entrevista com a tradutora

Cristina Cavalcanti, que esteve em Barcelona e conheceu a igreja de Santa Maria do Mar, o bairro gótico e outros cenários do livro, fala sobre o desafio de traduzir A Catedral do Mar.

Num livro como A catedral do Mar, de trama complexa e muitos detalhes históricos, qual foi o método adotado por você para traduzir termos e expressões que se referem à Idade Média e não fazem parte do vocabulário da maioria dos leitores brasileiros?

A linguagem do livro é contemporânea, o que facilita tanto a compreensão quanto a tradução. Mas alguns aspectos estão mais detalhados e exigiram mais tempo e pesquisa, como, por exemplo, o processo construtivo de Santa Maria do Mar, as atividades comerciais ao longo do Mediterrâneo e todo o universo de gente e profissões, embarcações e fazeres de todo tipo que giravam em torno do porto de Barcelona. Googleei muitíssimo e encontrei coisas bem legais, como um dicionário visual da construção trilíngüe, sites portugueses com desenhos de embarcações medievais etc.. Tirei dúvidas com amigos arquitetos e engenheiros aqui e na Espanha, incomodei o autor por duas vezes por e-mail e visitei o Museu Marítimo de Barcelona para certificar-me da equivalência entre os barcos mediterrâneos da época cujos nomes e descrições encontrei e aqueles que Falcones menciona.

Você já havia traduzido romances históricos antes? Qual foi a maior dificuldade no processo de tradução de A catedral do mar?

Esse foi o primeiro romance histórico que traduzi. A maior dificuldade refere-se aos temas que menciono acima.

Você fez o tour literário que algumas empresas de turismo montaram para levar os leitores aos cenários onde se passa a história de Arnau Estanyol. O que achou do passeio?

Por coincidência, tinha uma viagem planejada a Barcelona quando a Rocco me ofereceu o livro. Pedi ao autor indicações de referências arquitetônicas no bairro gótico e ele recomendou este tour literário, o que foi ótimo não só para visualizar o que estava traduzindo como também porque as guias, que são historiadoras, explicam os usos e costumes da época ao longo do passeio.

É possível identificar na Barcelona de hoje a cidade medieval descrita com tanta riqueza de detalhes por Ildefonso Falcones?

Só com muita imaginação! O bairro gótico viveu um longo período de degradação, mas seu traçado está relativamente preservado. Muitas edificações foram recebendo acréscimos renascentistas e barrocos ao longo do tempo. Um terremoto no séc. XV, um incêndio no século passado e o abandono desta parte da cidade – os vitrais de Santa Maria chegaram a ser completamente apedrejados por vândalos – deixaram marcas. Em um dos vitrais pode-se ver até um escudo do Barcelona, o clube, que recentemente financiou parte de uma das restaurações por que passou a igreja. (Só falta uma efígie do Ronaldinho nos vitrais!). Por último, o clima é outro: o bairro gótico é um dos pontos turísticos mais visitados da cidade.

Qual é a reação dos visitantes durante o passeio? Você trocou impressões com eles que ajudaram no seu processo de trabalho?

Os visitantes eram fãs do livro, que vendeu uma barbaridade na Espanha, então punham muita atenção à fala das guias e faziam muitas perguntas. Quando souberam que no grupo havia uma tradutora do livro ficaram curiosos e aproveitei para tirar da bolsa uma lista de dúvidas e solucionar algumas com eles, que foram gentilíssimos.

O que mais a impressionou na história?

O papel fundamental dos estivadores (os bastaixos do livro) na construção de Santa Maria do Mar e o reconhecimento desta contribuição por parte da hierarquia da igreja e dos poderosos da época, registrado nas efígies em bronze dos carregadores fixadas no pórtico do templo.

A igreja é uma jóia. Ela não tem a monumentalidade opressiva do gótico francês e alemão. O conjunto possui uma harmonia acolhedora. As proporções e a incidência da luz formando feixes lá no alto fazem dela algo único. É talvez a mais bela igreja que já visitei.

Qual é a sua formação e a sua relação com a Espanha? Você já havia estado em Barcelona? Acha que é diferente visitar locais como a Ribera, o bairro gótico e a igreja de Santa Maria do Mar antes e depois do romance?

Estudei antropologia social no México, onde vivi por nove anos, e fiz mestrado em comunicação na ECO-UFRJ. Vivi também na República Dominicana por três anos e viajei pela maior parte da América Latina e do Caribe. Então, minha experiência mais intensa e variada é com a língua espanhola. Há muitos anos viajei sem pressa pela Espanha e fiz parte de uma família espanhola, mas o país é tão grande e variado que seria exagero dizer que o conheço. A viagem do ano passado foi minha segunda visita a Barcelona e certamente meu olhar ganhou um foco mais apurado depois de conhecer alguns aspectos da história da cidade por meio do livro.

Na sua opinião, qual é o maior mérito de Ildefonso Falcones em sua bem-sucedida estréia na literatura?

Não entendo de crítica literária, mas gostei da maneira como ele estruturou e costurou o enredo. A trama é ágil, e mesmo as longas descrições de batalhas e  dos detalhes construtivos de Santa Maria, cuja construção acompanhamos ao longo do livro, têm uma vivacidade e uma qualidade visual que cativam o leitor.


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